Após 22 meses, o país volta a criar empregos: 35,6 mil vagas abertas

Saldo positivo entre demissões e contratações não ocorria desde março de 2015. Analistas, contudo, dizem que é preciso avaliar os dados com cautela

O presidente Michel Temer convocou a imprensa, ontem, para anunciar a criação de 35.612 vagas com carteira assinada em fevereiro, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Temer comemorou a notícia positiva, após 22 meses de fechamento de vagas — desde março de 2015, quando foram abertos 19.282 postos. “Claro que temos ainda muitos milhões de brasileiros que querem emprego. Mas é preciso começar. E o começo é por esta notícia”, disse.

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O chefe do Executivo, que tem feito esforço para expor uma agenda positiva em seu governo, aproveitou a levantamento para sinalizar que, segundo ele, é crescente a confiança dos agentes de mercado. “A economia brasileira volta a crescer e os sinais desse fato são cada dia mais claros”, pontuou. Para o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, o Caged “mostra que as medidas adotadas pelo governo nos últimos sete meses recolocaram o país nos trilhos, fazendo com que a crise fique cada vez mais distante”.

Os dados não apenas são animadores, como também indicam uma incipiente reação dos investimentos, na avaliação do coordenador-geral de Estatísticas do Trabalho do Ministério do Trabalho, Mário Magalhães, Ele ressaltou a geração de postos na indústria mecânica e na metalúrgica, subsetores da indústria da transformação, que registrou em fevereiro saldo de admissões superior ao de demissões em 3,9 mil postos. “Isso denota investimentos, compra de capital fixo”, destacou Magalhães.

O setor que mais abriu vagas, porém, foi o de serviços, com saldo de 50,1 mil contratações. A agropecuária admitiu 6,2 mil trabalhadores e a administração pública, 8,3 mil. Já o comércio fechou 21,2 mil postos e a construção civil dispensou 12,9 mil pessoas.

Reserva

Para muitos analistas, o Brasil ainda não tem motivos para comemorar, já que, nos últimos 12 meses, foram fechados 1,28 milhão de empregos formais. O saldo positivo de fevereiro foi resultado de 1.250.831 contratações e de 1.215.219 demissões, o que levou o país a registrar 38.315.069 pessoas empregadas. A Região Sul teve o maior crescimento (35.422 vagas). O Sudeste abriu 24.188 vagas e o Centro-Oeste, 15.740. No Norte (-2.730 vagas) e Nordeste (-37.008), as dispensas superaram as contratações.

O economista Geraldo Biasoto Júnior, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disse que a pequena melhora já era esperada. “É de praxe que fevereiro seja melhor que janeiro, quando ocorrem as dispensas dos contratados temporariamente no fim de ano. Mas é difícil garantir que o Brasil vai mesmo melhorar”, ressaltou.

Biasoto lembrou que o país tem taxa de juros real de cerca de 7% ao ano, vive uma grande desorganização macroeconômica, tem câmbio valorizado e crédito restrito, além das inseguranças com a Operação Lava-Jato. “A economia está sendo baleada pela política. Como atrair investidores com esse panorama? O medo de começar a admitir ainda não desapareceu”, afirmou.

No entender do economista Carlos Alberto Ramos, da Universidade de Brasília (UnB), o otimismo do governo deve ser encarado com reservas. Afinal, explicou, a economia real continua deteriorada e a queda de 0,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no quarto trimestre de 2016, em relação ao terceiro trimestre, é indicativo de que a reação será lenta em 2017.

“A valorização do real em relação ao dólar joga contra a indústria. Os empresários não vão sair contratando a torto e direito. Precisam da certeza de que as reformas da Previdência e a trabalhista serão aprovadas. Tanto admissão quanto demissão têm custos. O empresariado ainda vai aguardar para retomar os investimentos em mão de obra”. Ele acredita que o mercado de trabalho só apresentará uma melhora mais nítida no último trimestre de 2017.

Mudanças

As flutuações nas intenções de investimento dos empresários são sentidas na prática pelos trabalhadores. Fernanda Rocha, 25 anos, ficou quatro meses sem emprego depois que perdeu a vaga de recepcionista na Câmara dos Deputados. Agora trabalha em uma concessionária, mas com salário inferior. “Eu ganhava R$ 2,5 mil por mês. E passei a receber R$ 1 mil. Mas precisava trabalhar. O dinheiro do seguro-desemprego já estava acabando”, disse.

Patrícia Yunes, 45, viveu situação semelhante. Era secretária em um órgão público. Há três anos, estava entre um grupo de terceirizados que foi demitido. “Fiz bico como recepcionista de convenções e seminários. Só agora, três diferentes companhias me procuraram ao mesmo tempo. Apesar das opções, o melhor salário é de R$ 3,5 mil. Eu vivia com R$ 4 mil”, reclamou.

A secretária contou que o filho, de 22 anos, também foi dispensado na mesma época. “Ele trabalha com tecnologia da informação. Foi convidado em outro estado para ganhar o dobro. Pelo menos, ele teve sorte”, comemorou Patrícia. Já José Paulo Fonseca, 32, conseguiu equilibrar as finanças. Era vigilante, agora, é cuidador de cães. “Estou fazendo uma coisa diferente, mas continuo com o mesmo salário. Acabou sendo bom, porque não afetou meu orçamento”, salientou.

Edna Evangelino, 29, deixou de trabalhar depois que o salão de beleza onde era manicure fechou, justo no momento em que pensava em fazer um curso de cabeleireira. “Meu avô, que é uma pessoa muito sábia, disse que há males que vêm para bem. Ele me ajudou, eu estudei, aprendi a profissão de cabeleireira e estou me formando em podóloga. Ainda não consegui emprego, mas estou mais confiante, porque faço vários bicos e não fico sem dinheiro”, afirmou Edna.

Do Correio Brasiliense

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